Uma experiência pessoal do circuito W na Patagônia

A Patagônia há muito tempo era um sonho que eu sabia que iria realizar, mas não tinha a menor ideia de quando. Quando comecei a pensar em ir de fato, me vieram tantas dúvidas, fiquei tão perdida que quase desisti da ideia. Sabia que precisava de uma boa companhia porque fazer esse trekking sozinha seria muito perigoso, principalmente por causa dos meus problemas de saúde. Diante disso, eu pensava em alguém que além de me passar segurança, topasse todas as condições que seriam expostas durante o percurso. Até esse momento, já tinha lido um pouco sobre o lugar: clima, pessoas, custos, equipamentos, desafios físicos e mentais. Tinha certeza que não seria fácil. Diante disso, lembrei de um amigo de outro Estado, e era quem mais eu sentia que eu não teria problemas se entrasse nessa aventura comigo. Até então, não estava namorando, e então era ele ou nada. Fiz o convite, ele aceitou e começamos a conversar sobre.

No decorrer do planejamento, comecei a namorar e obviamente fiz o convite para namorado. No começo ele não aceitou com receio de não conseguir andar os 80km do W trek. Mas logo que começou a conhecer as paisagens por fotos, e que poderíamos fazer o trajeto no nosso tempo, reconsiderou e topou entrar nessa aventura comigo, o que me deixou muitíssimo feliz.

A partir daí o primeiro passo seria escolher a data levando em consideração o que queríamos fazer e ver. O pensamento era fazer a trilha sem neve no caminho, mas com neve nas montanhas. As trilhas do circuito W abrem em meados de setembro, período em que começa a primavera e o gelo diminui. Então, decidimos novembro (19/11/2018 a 25/11/2018) porque tinha um feriadão no Amazonas e principalmente porque estava mais quente. Mesmo no verão, lá é muito frio (pegamos -4 graus um dia) e eu não queríamos ver apenas neve, queríamos apreciar uma paisagem de cores, como já disse, porém com neve nas montanhas. Então, a escolha dessa data foi estratégica depois de lermos muito sobre.

O segundo passo era definir as hospedagens. Verificar se ficaríamos em acampamentos (barracas) ou nos refúgios (hostels). Decidimos acampamentos por duas razões simples: quando fomos reservar (junho 2018) não tinha mais nenhuma vaga para ficarmos em refúgio e os valores eram bem acima das nossas condições financeiras. Inicialmente pretendíamos reversar entre refúgio e acampamento (dia de rei e dia de subalterno), entretanto como eu disse, a reserva mesmo sendo 5 meses de antecedência não deu tão certo como pretendíamos.

O terceiro passo foi conhecer os equipamentos necessários para o trekking. Sinceramente, penso que o que nos custou mais caro, foi comprar tudo que achamos necessário e acreditem, ainda faltou na hora. Não demos muita atenção à pequenas coisas, porém importantíssimas em um trekking na Patagônia. Ex.: Luvas, gorros e capa de chuva. Não subestimem esses itens e não levem apenas 1. Sugiro no mínimo 3 luvas e gorros.

Chegou a hora da viagem. Nosso trajeto era sair de Manaus, passar por São Paulo, Santiago, Punta Arenas, Puerto Natales e só então chegarmos no Parque Torres de Paine. Em um outro post, colocarei o trajeto mais detalhado. Neste, irei me ater ao Circuito W.

Não há um local exato de partida para o trekking do Circuito W. Você pode simplesmente começar por qualquer perna do W. E também eu não vi um jeito mais fácil de fazer. De todas as maneiras você irá andar demais. Entretanto, decidimos começar pelo Refúgio Paine Grande.

Vou botar um mapinha aqui para ajudar na localização da minha história.

Uma elipse azul marcando o nosso início do W trek

Então, se você olhar com calma, verá no mapa um circuito no formato de um W. Nós começamos pela perna esquerda do W, Refúgio Paine Grande. Só que para chegar nesse refúgio, primeiro pegamos um ônibus de Puerto Natales até a entrada do Parque que fica em Laguna Amarga, onde tivemos que comprar a entrada do parque. Após a compra do ticket, entramos de volta no ônibus para seguir caminho até a Cafeteria Pudeto (onde partem as lanchas até Paine Grande).

Preciso parar para comentar sobre a parada na Laguna Amarga. Quando chegamos na entrada do parque, descemos do ônibus e fomos para uma fila que era para a compra do ingresso do parque. Após pagarmos, olhamos o ônibus (onde estava nossa bagagem) e ainda estava paradinho por lá. Decidimos ir ao banheiro. Meus amigos, um erro a não cometer. Se forem ao banheiro comuniquem o motorista do ônibus, pois eles não fazem contagem de passageiros e não esperam por você. O que aconteceu, foi que quando saímos do banheiro, os 3 praticamente ao mesmo tempo, e procuramos o ônibus, este já estava indo embora e a uns 50 metros de distância e subindo uma ladeira. Meu namorado, se deu conta mais rapidamente da situação lamentável que estávamos entrando e saiu correndo atrás do ônibus e gritando em todas as línguas que vinha na cabeça dele por: – motorista, motorista, volte, por favor. Até que ele viu pelo retrovisor e parou. Corremos loucamente até o ônibus conseguindo dar andamento ao que estava planejado.

Devo salientar que os ônibus têm hora “certa”, nem tão certa assim porque depende do clima, porém não há vários ônibus à disposição. É importante prestar muita atenção nos horários e regras em todo o percurso. Às vezes, se torna tenso, mas é necessário. Afinal, estávamos praticamente no fim do mundo.

Continuando… seguimos no ônibus até Pudeto, onde pegaríamos a lancha para o Refúgio Paine Grande. Quando chegamos ao Pudeto, já tinha uma fila monstra. Percebemos que as lanchas estavam atrasando. Logo começou a chover muito e percebemos então porque ela estava atrasando e a fila só aumentava.

Segue o mapa do caminho que fizemos para chegar ao Refúgio Paine Grande. Fiz o trajeto de preto, onde a elipse é a partida, para diferenciar dos outros e vocês identificarem exatamente como fizemos.

Traçado preto do percurso necessário para começar o W Trek

Depois de umas 2h esperando debaixo de chuva, finalmente a lancha chegou e conseguimos partir para o Refúgio Paine Grande. Estava muito frio, e eu estava começando a ficar molhada. As roupas que compramos resistente a água, sustentaram por um tempo, mas depois começaram a ficar úmidas por causa do frio e muita chuva. A adrenalina da viagem e a paisagem surreal que aparecia a cada momento pelo caminho, amenizavam o frio e o cansaço. Uma coisa curiosa, é que no verão a Patagônia escurece lá pelas 21:30h. Isso é muito legal porque conseguimos aproveitar as paisagens maravilhosas a luz do dia.

Bem, estamos no dia 19 de novembro de 2018, primeiro (1º) dia. Chegamos por volta de 14h no refúgio. Como eu já falei, não dormiríamos no refúgio e sim no acampamento (em barracas). Mas comeríamos no refúgio. Decidimos então, deixar nossas coisas na barraca e voltar para comer. Nesse dia, decidimos curtir o local, conhecer os arredores e dormir para começarmos o circuito na manhã seguinte. Nesse momento estou me lembrando que a chuva só deu uma pequena trégua e em todos os dias e todas as horas, o vento não cessava.

Mesmo com o tempo ruim, a vista é sensacional

Os ventos naquela região são muito fortes. Lembro que antes da viagem, quando eu lia em blogs, não dei tanta importância porque eu achava que ventos fortes eram os ventos de Fortaleza no Ceará. Então eu comparava aos ventos uivantes do Ceará. Pobre de mim, como fui ignorante hahaha. Quando eu falo em ventos fortes, são ventos que te tiram do lugar e te jogam pra fora da trilha. São ventos de 100km por hora ou mais. São ventos que te dão medo, porque na maioria das vezes você está próximo de penhascos. Então não subestime meu texto, risos. 

A noite na barraca não foi nada fácil até meu namorado, Gabriel, alugar um outro saco de dormir e colocar um saco dentro do outro. Isso tudo porque eu estava com um frio insuportável e não tinha roupa que me esquentasse o suficiente. O chão era muito gelado e mesmo com o tapete térmico e um saco muito bom da The North Face não foi suficiente. Depois que alugamos um outro saco, minha vida melhorou bastante. Parei de sentir tanto frio dentro da barraca. Enquanto isso, os meninos estavam de “boas”, o frio deles parecia aceitável rs.

Enfim, dormi bem, levando em consideração que eu acordo várias vezes para ir ao banheiro por causa de um problema na bexiga. Isso não é nada legal quando se trata de acampamentos. Não tenho frescura e suporto de boa até, mas é muito inconveniente acordar cinco vezes e precisar andar 100 metros até um banheiro para fazer suas necessidades. Então decidi botar a bunda pra fora e mijar do lado da barraca mesmo. Apesar do vento congelante na bunda, eu economizaria tempo de sono e tempo andando no frio do cão para chegar até o banheiro. Bem, a noite acabou sendo um sucesso rs.

Acordar não foi uma tarefa fácil, de novo, aquele frio gelando seus ossos do lado de fora não parecia algo convidativo. Mas tínhamos um plano e aventuras pela frente. Isso pesou mais. Dia 20 de novembro, segundo (2º) dia. Tomamos nosso café no refúgio, separamos roupas e acessórios em uma mochila só, e deixamos as outras mochilas guardadas em uma área dentro do refúgio para pegarmos quando descermos, na volta. Após o café, partimos em direção ao topo da primeira perna do W, o acampamento Grey. Lembrando que estava chovendo ainda. Toda a paisagem do caminho de subida foi ofuscada pela chuva. Mesmo assim, era lindo, era diferente. Eu não acreditava que estava realizando um sonho.

Uma observação que eu deva dizer com relação ao circuito W, é que ao contrário do circuito O, você tem duas chances para ver a paisagem do caminho, já que você vai descer pelo mesmo caminho, no outro dia, isso se você decidir dormir no acampamento Grey. E esse foi o nosso caso. Optamos por tentar aproveitar bem os dias e apreciar a paisagem. Partimos de muito longe para corrermos o risco de tornar a viagem dolorosa ao invés de deliciosa.

A subida foi bem difícil porque choveu o dia inteiro nesse dia. Foram cerca de 5h andando debaixo de chuva. Chegamos muito molhados. Enquanto andávamos, o corpo estava quente e não sentíamos frio. Mas quando chegamos, nossa Senhora, era um frio surreal. Devia está próximo de 0 grau e sensação térmica de alguns negativos, certeza. Os meninos também estavam todos molhados e sentindo muito frio. No momento do checkin eu pedi ajuda do recepcionista. Implorei por um agasalho a mais, e ele me deu o dele emprestado. Foi muito gentil da parte dele me emprestar até o outro dia. O nome dele era Lucas e senti tanta gratidão que não consigo esquecer aquele rapaz. Eu não tinha subido com muitas roupas a mais, até porque não dava para levar muitas roupas. Cada roupa a mais, temos que levar nas costas e o sofrimento aumenta mais ainda. No meu caso, o sofrimento seria dos meus parceiros que estavam revezando a mochila naquele dia. Não seria justo.

Laguna Los Patos

Só lá no acampamento Grey, tomei a verdadeira noção da necessidade de uma boa capa de chuva, que eu não tinha até este dia. Primeira coisa que fiz, foi entrar correndo na lojinha do Refúgio comprar uma capa, antes que acabasse. Após um banho e uma lavagem rápida das roupas sujas de terra, jantamos e fomos para barraca descansar para o retorno no dia seguinte. O camping no Grey é muito lindo. As barracas ficam dentro de uma floresta surreal e a vontade que eu tive foi de querer ficar fora até escurecer, apreciando a paisagem, ao mesmo tempo dentro pra se esconder do vento gelado que uivava.

Dia 21 de novembro, terceiro (3º) dia. Saímos do camping por volta das 9h e decidimos subir mais 4km para conhecermos as pontes mais lindas da vida. O dia acordou lindo, sem chuva. A paisagem estava impressionante. As florestas da Patagônia fazem parecer que está dentro de um filme. Eu me perdia no olhar. Parava para descansar durante a trilha, mas a vontade mesmo era tentar gravar todo o cenário e nunca mais tirar da memória aquela grandiosidade toda, bem em nossa frente. Quando chegamos na primeira ponte, ave maria, cheia de graça!! Fiz uma oração interna e pedi a Deus que se algum dia eu perdesse a memória, que aquilo nunca saísse da cabeça, porque me traria paz, calmaria e vida.

Segunda ponte do Glaciar Grey

Ainda viria a paisagem mais foda ainda. A segunda ponte é de chorar olhando. As pontes são, aliás, a verdadeira atração do setor. Suspensas a cerca de 20 metros do solo, dão um clima meio Indiana Jones à caminhada. De um lado a geleira, do outro a montanha, o vento forte soprando e você lá, cruzando aquela ponte, balançando a cada passo seu. Eu me vi em cima do Glaciar Grey dentro da natureza, do cheiro de ar puro e com um céu azul lindo e perfeito. Nada que eu fale aqui vai chegar perto da realidade. Vá!

Vista de um mirador logo após a segunda ponte do Glaciar Grey

Para isso, subimos mais 4km e tínhamos que descer com mais rapidez porque precisávamos descer mais 11km (dizendo as placas pelo caminho), mas eu penso que 1km no Chile não são 1000 metros, mas talvez 1.300 aproximadamente. Não tem como sabermos exatamente. Durante as trilhas a gente vai lendo nas placas e algumas pessoas vão riscando e colocando outros valores – mais altos- inclusive. Mas me pareceu ser um pouco mais que o que consta no mapa. Enfim, chegamos no Paine Grande por volta das 17h.

Após a chegada fomos fazer o check in novamente, arrumar as coisas na barraca, e começar a pensar na janta. A janta acontece por volta de 19h, dependendo de cada refúgio. Devo salientar que no nosso caso, pagamos pelas refeições prontas. Ou seja, não optamos por fazermos as comidas. Essa possibilidade existe para os seres humanos com costas mais fortalecidas e em condições de carregar tralhas de cozinha. Enfim, existe uma cozinha lá disponível. Existe também a possibilidade de você pagar para carregarem suas coisas. Resumindo: se você tiver grana, você consegue até que te levem nos ombros rs rs…, brincadeira.

Após o jantar, onde inicialmente você precisa chegar cedo pois há uma fila grande para isso, nós fomos descansar finalmente. Agora vem um momento muito engraçado. Já tínhamos nos hospedado no camping Paine Grande, entretanto na primeira vez, antes da subida pro Grey, nós tínhamos ficado em uma barraca para três pessoas. Ela era bem grande e afastada das outras. A localização era fácil de achar.

Porém, na segunda vez, ficamos em barracas duplas. E as barracas eram idênticas, uma ao ladinho da outra, meu… muito difícil sair de uma e entrar na mesma. O que aconteceu, foi que meu amigo Hermano, entrou na primeira vez em uma barraca e deixou uma parte das coisas. Depois entrou numa outra barraca e deixou outra parte das coisas, meio que sem se dar conta que não estava tudo lá. Até porque já estava escuro e não dava pra ver nada. Só que na hora de dormir, quando ele precisou da escova de dente, se deu conta que a bolsa não estava lá. Gente, foi uma agonia. O coitado começou a gritar no meio de umas 50 barracas perguntando quem tinha pego as coisas dele, que devolvesse pois tinha óculos, escova de dente, tapete térmico… hahah. E até ele descobrir que tinha entrado em duas barracas diferentes e espalhado as coisas demorou alguns muitos minutos e foi meio triste e engraçado depois que descobrimos o que tinha acontecido de fato. Mas hoje quando lembramos, começamos a rir instantaneamente.

Barracas no Camping Paine Grande

Enfim, dormimos e no dia seguinte partimos para Refúgio Francés, quarto (4º) dia. Dia 22 de novembro. Mais um dia com a luz do sol maravilhosa, alguns chuviscos e ventos uivantes, mas nada que atrapalhasse a paisagem que ía aparecendo no decorrer da caminhada. Preciso confessar, que apenas escrever aqui e voltar no tempo, me faz sentir uma emoção enorme e um frio na barriga. É possível que você passe uma vida inteira sem entender o que sinto quando estou trilhando, se você não gosta de trilhas. Se gostar, vai saber exatamente o que estou falando.

Bem, o percurso até o Refúgio Francés é basicamente constituído por 3 lagos impressionantes: Lago Pehoe, Lago Skottberg e Lago Nordenskjold. Todos azuis e de limpar a alma de tanta beleza. Foi uma média de 5 horas de caminhada, parando para muitas fotos e descanso. Cansou, mas nada comparado a subida pro Grey, até o momento.

Lago Skottberg

Esse percurso nós fizemos carregando as mochilas. Cada um com a sua. Meu namorado e meu amigo colocaram as coisas mais pesadas nas costas deles e eu levei a mais leve. Mesmo assim, dói muito as costas, meu Pai! Mas não podia reclamar, pois já estava sendo abençoada de não levar tudo pesado comigo.

Chegamos cedo e curtimos muito o camping Francés. É o mais “chic” de todos. Os banheiros são lindíssimos (para um banheiro no meio do nada) e aproveitei para tomar um banho. Os banhos devem ser sempre muito rápidos devido ao tempo de 10 minutos para cada pessoa. Estamos falando de um lugar que é autossustentável e de dificílimo acesso. Aproveitamos também para colocar as roupas para secar. Tínhamos um monte de roupas molhadas por conta das chuvas dos primeiros dias. E foi sucesso!

Domes Francés – apenas conhecendo porque é muito caro a hospedagem
Camping Francés – metade do caminho

Após apreciarmos calmamente a paisagem e termos um delicioso jantar no restaurante lindo de frente para o lago Nordenskjold , decidimos ir dormir. Optamos por não subir até o Mirador Britânico, pois precisávamos descansar. As fotos que vimos na internet não foram convidativas pra valer o esforço.

Acordamos no dia 23 de novembro por volta de 7:30h, prontos para o quinto (5º) dia. Infelizmente eu acordei com dor na garganta e eu acho que por conta do banho que tomei no dia anterior. O choque térmico destruiu minha garganta. Mas para minha sorte, meu amigo Hermano é médico e já foi me medicando pra aliviar os sintomas. Então partimos umas 9:30 da manhã para o Camping Torre Central. Sabíamos que esse trajeto seria o mais difícil de todos. Meu namorado repetiu isso todas as vezes que falávamos em Circuito W.  Ele já estava me preparando psicologicamente. E de fato, Pai Eterno, parecia que não ía chegar nunca.

Lago Nordenskjold

Tenho certeza absoluta que se não fosse um percurso de paisagem tão surreal quanto os outros, eu tinha desistido no meio do caminho. Não, não tinha. Brincadeira! Uma coisa que não acontece quase nunca, é alguém desistir. Só se desmaiar ou morrer. Mas de todos os outros jeitos, você vai dar seu “pulo do sapo”, continuar e terminar. Simplesmente porque não tem o que você fazer. Só seguir em frente e rezar. Mas o cansaço nas costas foi tomando conta de um jeito lamentável. Nós já tínhamos andado umas 4 horas e não aparecia nem uma placa pra dar um sossego em nossa alma, o que acontecia nos outros trechos. As plaquinhas, mesmo que as vezes mentindo (distância), nos davam uma sensação de paz e noção do tempo. Nesse trecho, não conseguíamos ver quase nenhuma, o que era desesperador.  

Já tínhamos passado pelo acampamento Los Cuernos, por umas duas Pontes (era um ponto de referência que tínhamos em mente), mesmo assim, não havia um sinal de vista de Refúgio. Até que meu amigo Hermano decidiu perguntar para duas “cabocas” que eu penso, estavam meio bêbadas (normal beberem por causa do frio), quanto tempo faltava para chegarmos no Torre Central.  Eu lembro de ter falado bem alto: “não pergunta que ainda falta muito e a resposta vai se tornar um desânimo”. Mas eu jamais imaginaria que a resposta seria tão absurda. Elas responderam em inglês: “Vocês realmente estão muito longe ainda. Uma média de 4h a mais de caminhada”. Ahhh, queria que você imaginasse a cara que fizemos. Tente imaginar umas caras de choro, frustradas, exaustas e sem poder fazer absolutamente nada. Mas o Hermano gaiato, respondeu “thanks” e dois passos depois disse em português e em alto e bom tom: “ – meu ovo que faltam 4 horas. Eu já andei feito um corno e essas filhas de quenga tão bêbadas. Sabem nem o que estão falando. ” Rsrsrsrsrs

Bem, nós estávamos muito cansados e não conseguíamos entender a relação de tempo andado com o tempo que dizia no mapa. Não batia. Talvez porque havíamos parado muitas vezes pra descansar e tirar muitas fotos. Estávamos em uma vibe diferente dos demais. Todo mundo passava por nós, especialmente porque eu não conseguia andar muito rápido e precisava parar para descansar. Os meninos paravam comigo logicamente. Então acho que perdemos muito tempo e já era umas 16:30h. O desespero bateu, começamos a andar, só andar, sem falar mais, sem conversar nada, sem tirar mais nenhuma foto. Eu me dei conta que se parasse de andar, ficaria arreada no chão e não conseguiria mais andar. Então decidi só caminhar o mais rápido que podia. Deixei os meninos para trás e tomei até uma certa distância deles. Eu os via as vezes muito longe. Olhava só pra me certificar que estava “tudo bem”, na proporção dos sentimentos, claro rs.

Finalmente, lá pelas 17:30h conseguimos avistar de muito longe o hotel. Mas ainda faltava muito. Continuamos a andar e depois de uma hora e meia chegamos. Eu cheguei aos prantos. Chorei muito. Era uma mistura de dor e felicidade por ter chegado ao último trecho. Sendo sincera, era mais dor que felicidade. Meus pés estavam dormente, os dedos dos pés eu não sentia mais. Minha garganta doía loucamente. O efeito do remédio já tinha passado e eu estava prestes a desmaiar de dor. Mas lá no fundo, havia uma força, um sentimento de gratidão e muita felicidade por estar com eles (meu amor e meu amigo), por eles cuidarem de mim tão bem. Se preocuparem o tempo todo e principalmente toparem tudo sem reclamar, sem ser desagradável, com otimismo, bom humor. Desculpem o palavrão, mas caralho, é muito difícil encontrar essa sintonia, encontrar a possibilidade de um aprendizado espontâneo de como ser resistente, bem-humorado e humano, mesmo com tantos desafios a serem vencidos. Eu sou tão sortuda que me sinto muito mal quando eu mesma me pego reclamando de algo. Sinto que não posso me dar esse luxo.

Acampamento da Torre Central

Enfim, depois do Gabriel me carregar do setor de checkin até o camping (eu chorando ainda), deitei. Ele tirou minhas botas, me arrumou e foi atrás do Hermano (estava arrumando a barraca dele) para ele me medicar com uma dose mais forte de remédio porque eu estava com muita dor. Passou um tempo mais, fui me acalmando, remédio fazendo efeito rapidamente e a alegria voltou rs. Fomos jantar e voltar para descansar para o último grande dia de circuito W. “Na real”, o dia seguinte seria o dia de conquistar o ícone de Torres del Paine: A imponente Base das Torres.

Dia 24 de novembro de 2018, sexto (6º) dia. Acordei ainda cansada, mas totalmente recuperada das dores fortes do dia anterior. Subimos por volta de 9 da manhã, depois do café no refúgio Torre Central, onde a vista é muito perfeita igualmente aos anteriores, porém diferente em suas particularidades.

Já tínhamos lido que a subida para Base das Torres não seria das mais fáceis, principalmente o último quilômetro. Mas eu confesso que ainda assim, foi mais fácil que o percurso do Francés pra Torre Central, no dia anterior. E foi mais fácil também porque não estávamos com as mochilas nas costas.

Levamos umas 4 horas na subida, com paradas para comer e descansar. O que eu vou falar aqui agora, é algo muito pessoal e particular, portanto eu acho que você que está lendo não deve levar muito em consideração, mesmo assim darei meu parecer rs: a trilha em si, não é das mais bonitas. Não que ela não seja linda, mas se eu comparar com as outras, ela fica dois décimos atrás hahaha. Mas estou falando do percurso, não do objetivo.

O objetivo que é a Base das Torres… é de arregalar os olhos. Um cenário digamos… poderoso, deslumbrante e único. Quando eu me encontro nesses lugares únicos, a primeira coisa que eu penso é: Como Deus criou isso? Eu sinto a presença Dele forte, como eu não consigo sentir dentro de igreja alguma. Não sei explicar. Dizem que Deus está dentro da gente. Então acho que me encontro verdadeiramente com Deus quando estou dentro da natureza, porque eu faço parte dela e ela faz parte de mim. Eu sinto meu papai que também está no céu sussurrando no meu ouvido: “estou com você o tempo todo”, sem exagero algum. É real e forte. E isso me abastece! Se felicidade é um momento que você não quer que acabe nunca, eu sinto felicidade extrema em todas as minhas viagens para natureza selvagem.

Base das Torres

Voltando… passamos umas duas horas lá em cima curtindo, comendo, fotografando e voltamos. A volta foi bem mais rápida, mas doía o pé por conta da altitude. Aproximadamente 980 metros de desnível, joelho e pés machucaram bastante. Deu tudo certo, levamos um total de 9 horas e meia de percurso (ida e volta), com aqueles ventos uivantes pelo meio do caminho, o cenário mudando o tempo todo, porém não menos espetacular até o retorno ao camping. De lá pegamos uma van até a Laguna Amarga e depois um ônibus (que demorou absurdamente pra chegar) para Puerto Natales. E assim terminou a aventura em Torres del Paine.

E aí…, que um dos meus sonhos foi realizado com maestria e singularidade. E mesmo muito bem planejado por nós três, os planos de Deus são sublimes. Engraçado que escuto muitas perguntas sobre as aventuras e uma delas é: porque você viaja pra passar perrengue? Eu posso te responder: não viajo para passar perrengues, viajo para que os perrengues da rotina passem. Perrengue pra mim, é você todo dia viver uma rotina de acordar, trabalhar, academia, casa. Isso quando você tem a capacidade mental (risos) de entender que você precisa de um exercício físico pra ter um mínimo de qualidade de vida. Caso contrário, nem isso. Tudo bem se você diz que é feliz assim. Dizem que ignorância traz felicidade. Talvez você desconheça o outro lado da vida. Mas eu posso te garantir que sair do conforto, da mesmice, da comodidade, vai te fazer se sentir mais forte, se sentir desafiado, conquistador. O que faz a gente ser feliz todo dia é a capacidade que a mente tem de gerar desafios para gente vencer. No meu caso, ir para a natureza e explorá-la me dá essa sensação de alegria e tesão. Se você sente isso com outra coisa, que bom. Mas com certeza, pra você terminar essa leitura comigo, algum interesse você tem na forma como eu vivo. E fico feliz se eu puder espalhar um pouco aventura por aí. Fuuuuuuii!!

O Deus que habita em mim, saúda o Deus que habita em você.